Captulo1-1

               Quando nada muda na nossa vida, acabamos acostumando com ela e isso torna-se uma coisa cotidiana. Para alguns que acham isso legal, acredito que a minha vida seria tudo para eles. Porem, para aqueles que não agüentam isso, a vida que estou passando agora seria um caos. Do pouco que me lembro como eu era, acredito que agora seria entediante e já teria saído ao mundo a fora para resolver essa rotina.
Mas agora, eu não posso e não consigo fazer isso. Há vários fatores que contribuem, mas o maior é o fato de eu não poder mais andar. Falando melhor esta frase, adequando com a minha situação atual, eu usaria a palavra não lembrar.

Acredito que já faz mais de 10 dias que acordo nesta mesma cama branca de um hospital, Onde há um fecho de luz que consegue passar a cortina quase toda fechada mantendo o quarto escuro, alguns vasos de flores e retratos espalhados pelo quarto ocupando juntos os espaços em cima das mesas para não deixar o quarto somente em tom branco, uma televisão na parte de cima da cômoda, a minha cama que fica localizada no centro do quarto e um criado mudo ao meu lado esquerdo que deixo algumas coisas que utilizo quando me lembro da existência de da maneira de usar.

E sempre que o relógio na parede a minha frente mostra o ponteiro maior para cima e o menor reto para a esquerda, duas ou mais pessoas entram neste quarto para me examinar. Isso é tudo que consigo lembrar, tem algumas coisas em cima das mesas, alguns lugares para sentar espalhados pelo quarto, mas agora, neste meu estado não lembro mais de nada. E por isso, o meu cotidiano, acaba não tornando cotidiano por eu não lembrar das coisas que aconteceram e tudo fica novo a cada momento para mim.

               Não sei o porquê, mas hoje acordei bem e consegui ligar o laptop que fica sempre em cima do criado mudo. Mesmo internado no hospital eu não preciso de máquinas para sobreviver ou soros para me alimentar. Então quando vim aqui, o medico que me atendeu disse que poderia usar qualquer coisa, desde que eu lembre como usar.
Por isso, neste quarto tenho alguns jogos e o computador para me divertir um pouco quando acordo bem.

Aqui, eu não tenho muitas coisas a fazer alem de assistir, jogar e ler.Como já disse, eu não posso me mover daqui e se quiser ir à algum lugar, preciso de ajuda de alguém para me colocar na cadeira de roda.Quando estou bem desse jeito, espero o médico vir me examinar e peço ao rapaz que vem sempre junto com ele me colocar na cadeira de roda para passear.
Eu não me lembro muito bem de como este rapaz é, e nem o nome. Mas sempre que eu peço algo a ele, ele me trata muito bem e com toda a calma espera eu mover cada membro do corpo que cada dia fica mais difícil e lento.

No quarto só ouvia o som do teclado, quando a porta se abriu e uma enfermeira entrou com uma bandeja em cima de um carrinho. Ela aparentava ser muito jovem.
-Bom dia senhor. – Cumprimentou-me com um sorriso.
-Bom dia. – Então respondi imediatamente, fechando a tela do laptop.
Ela pediu licença para retirar o laptop que estava em cima da minha perna e colocou a mesa de apoio para servir o café da manhã.
-O senhor parece muito bem hoje. – Começando a colocar os pratos, ela me olhou.
-Tive um sonho ótimo esta noite.- eu respondi.
-O senhor quer café ou chá? – sorrindo ainda e colocando a xícara na mesa, ela me perguntou.
Eu não costumava tomar chá, mas hoje, achei legal tomar um pouco para tentar lembrar um pouco do passado.
-Aceito o chá.
-O senhor tomando chá? Bom, parece que o sonho que teve foi muito bom mesmo né.
-E tão estranho eu tomar chá? – Fiquei um pouco indignado com a resposta dela e perguntei.
-Faz muito tempo que o senhor não toma chá.
Sei que foi uma resposta à minha pergunta e que ela não teve nenhum pouco de malícia quando respondeu. Mas aquela resposta fez me lembrar da doença que eu tenho.
E que é causadora de tudo isso que estou passando.
Pernas sem movimento impossibilitando a minha locomoção, as minhas mudanças de humor radical de uma hora para outra e lembranças que são apagadas a cada momento.
-Faz tanto tempo assim? – Eu tive que perguntar. Pois agora, já não lembrava mais a data de hoje.
-Sim, faz uns 3 meses que o senhor não toma chá.

Se eu tivesse ainda 23 anos, 3 meses não seria nada. Seria só mais 3 meses que se passaram. Mas agora, esses 3 meses pesam muito.
3 meses significa quase 90 dias, que significa 2160 horas, que significa 129600 minutos.
E cada minutos desses, para mim com 23 anos eram mais uma nova experiência e lembrança.
Mas agora, é um minuto a menos da minha lembrança que vai sumindo sem haver uma criação de novas lembranças para substituir.

-Tenha um bom dia.
Terminando de colocar todo o café da manha na mesa, ela sorriu novamente e empurrando o carrinho, agora só com as garrafas, ela saiu do quarto me deixando sozinho no mundo sem cores.
Deitei novamente na cama deixando de lado o café da manhã que foi servido. Não estava com muita fome, mas ainda estava com vontade de colocar algo no estômago quando ela chegou com o café da manhã.

Mas agora, o café da manhã servido tornou algo desagradável que me fez lembrar tudo que estava passando, porem, junto às essas lembranças nenhuma das outras que eu gostaria de lembrar voltou. Isso me deixara mais nervoso e assim, acabei perdendo totalmente o apetite.

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